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quinta-feira, 24 de maio de 2012

O sermão da Sexagésima


Gente na semana passada eu tive que fazer uma breve apresentação sobre O sermão da Sexagésima de Vieira. Confesso que na hora fiquei um pouco perdida porque não sabia por onde começar. Mas depois, o pensamento começou a fluir e eu gostaria de compartilhar com vocês um resumo das coisas que falei. São muitas as relações do sermão com a “Retórica” de Aristóteles. Tentem organizar os conceitos na mente de vocês :-)

1.       O que é sermão?
R: Resumidamente, o sermão é um discurso persuasivo com fins religiosos.
2            2.  Por que “Sermão da Sexagésima”?
R: O sermão da Sexagésima tem esse nome porque foi proferido no penúltimo domingo antes da Quaresma. Data de 1655 em Lisboa. 

A primeira coisa que se percebe ao término da leitura é que o Sermão da Sexagésima é um discurso que trata da arte de pregar, sendo, portanto, um METASSERMÃO. 

Conceito de metalinguagem - Quando você fala utilizando o próprio meio. Ou seja, no sermão da Sexagésima, Vieira apresenta sua teoria sobre a arte de pregar.

Relação entre Sermão e Retórica - A retórica é uma teoria do discurso persuasivo e Vieira constrói seus sermões com o objetivo de persuadir o público.

Quanto à estrutura, em “Retórica”, na parte XIII, “As partes do discurso”, Aristóteles diz: 

São duas as partes do discurso. É forçoso enunciar o assunto de que se trata e depois proceder à sua demonstração.

 Na primeira parte do Sermão, Vieira cita um trecho bíblico e vai desenvolvendo a análise dessa citação.

Vieira questiona os efeitos da palavra de Deus hoje e a causa do insucesso. De quem seria a culpa? De Deus, dos ouvintes ou dos pregadores? Após a análise, a responsabilidade é atribuída ao pregador e são levantadas hipóteses sobre tal responsabilidade.

Vieira critica o estilo dos outros pregadores contemporâneos que pregavam mal, pregavam sobre vários assuntos ao mesmo tempo e acabavam não pregando nenhum. Desta forma, os pregadores estavam agradando aos homens, e não a Deus.

Outra questão é levantada “Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?”. A partir das respostas propostas por ele mesmo, percebe-se o uso da retórica e assim a pregação vai sendo desenvolvida. Só que Vieira não responde sem fundamentos, ele utiliza vários tipos de argumentação para provar suas perguntas. Ele sustenta essas argumentações com exemplos bíblicos, silogismos, sofismas, associações e paradoxos para fundamentar as questões levantadas. Ou seja, ele lança um argumento e vai analisando todas as possibilidades de contestação que o ouvinte poderia fazer.

Vieira mesmo chega a “defender” a argumentação, ao dizer: 

O sermão há de ser de uma só cor, há de ter um só objeto, um só assunto, uma só matéria. Há de tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la para que se conheça, há de dividi-la para que se distinga, há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se deve evitar, há de responder às dúvidas, há de satisfazer às dificuldades, há de impugnar e refutar com toda a força da eloqüência os argumentos contrários, e depois disto há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto.

* Escritura com E maiúsculo = textos sagrados, a Bíblia
* A Argumentação pode ser encontrada o tempo todo no texto – passagens em Latim tiradas do Evangelho. (Os textos “dialogam” com o Evangelho)

Vieira ainda apresenta 5 opções de motivos para a palavra de Deus não frutificar: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo e a voz. Através das análises e das metáforas, percebemos a criação de um aspecto visual para o que ele está dizendo.

Em Retórica, Aristóteles diz assim:

 Convém, pois, visualizar as coisas mais na sua realização do que na perspectiva de virem a realizar-se.

A gente percebe essa “visualidade” no trecho:
Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da mesma matéria e continuar a acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede: uma árvore tem raízes, tem tronco, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas, porque há de ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco, porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria; Deste tronco hão de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos não hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras. Há de ter esta árvore varas, que são a repressão dos vícios; há de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, que é o fruto e o fim a que há de ordenar o sermão.
 Outro ponto importante a se destacar é o “jogo de palavras”, também presente na Retórica de Aristóteles quando ele fala em “elegância retórica”: 

Quanto ao jogo de palavras, este exprime não o que o enunciador efetivamente diz, mas o que resulta da mudança da palavra.

 O grande exemplo do jogo de palavras é o trecho:

Ah pregadores! Os de cá achar-vos-ei com mais Paço, os de lá com mais passos.
 (Paço = palácio/ passos = semeadores que saem de suas terras para semear pelas terras do mundo todo)

Para finalizar minhas observações (e não a discussão sobre a obra de Vieira), é possível relacionar a resposta final de Vieira com o conceito de fruição proposto por Roland Barthes em “O prazer do texto”.

Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem.

Trecho da resposta de Vieira: 

A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito, sem saber parte de si, então é a pregação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Estruturalismo linguístico.

Aqui vai um resumo de "Introdução a Linguística: 2 - Estruturalismo Linguístico: alguns caminhos" de Rodolfo Ilari com algumas considerações minhas a respeito do assunto.

O estruturalismo teve sobre os estudos da linguagem, no Brasil, um impacto enorme. Seu advento se deu durante os anos de 1960 e coincidiu com o reconhecimento da Linguística como disciplina autônoma. Nessa época, muitos professores e pesquisadores foram atraídos a sistematizar suas doutrinas, como foi o caso célebre de Mattoso Câmara Jr.
Por volta de 1970 o estruturalismo já era, no Brasil, a orientação mais importante nos estudos da linguagem e contribuiu para a criação do linguista que passou a ter um espaço próprio, como os gramáticos e os filólogos. O estruturalismo linguístico se impôs no Brasil e venceu resistências de outras tradições e análises, mas apesar disso não se deve pensar no estruturalismo linguístico como um movimento forte e coeso porque havia oposições.

No Rio de Janeiro (ÊÊÊ *-*) atuou desde a década de 1930 Joaquim Mattoso Câmara Jr, que foi um profundo conhecedor da Linguística produzida na Europa e na América. Seu livro foi o primeiro manual de Linguística publicado na América do Sul.

Em São Paulo, o estruturalismo linguístico se fez presente nos cursos de graduação e pós-graduação da USP, onde atuaram nomes como Eni Orlandi, Izidoro Blikstein e Cidmar Teodoro Paes. Esta geração de professores era parcialmente formada por antigos bolsistas renomados da França, que criaram condições para a releitura de autores como Luis Hjelmslev, Roland Barhes e Ferdinand de Saussure.

Vamos começar abordando a tradição estruturalista européia. Para a firmação do estruturalismo na Europa, foi altamente relevante o sucesso do livro Cours de linguistique générale, publicado em 1916 como obra póstuma de Ferdinand de Saussure. O livro não foi escrito por Saussure, mas sim por seus alunos da universidade de Genebra, o que causou dúvidas sobre o "verdadeiro" pensamento do mestre e gerou uma série de obras buscando desvendar as "verdadeiras" teorias de Saussure. Por isso o estruturalismo linguístico também teve influências desses outros Saussures.

Saussure elegeu como noção central para a compreensão do fenômeno linguístico a noção de valor, que só pode ser compreendida à luz de uma série de distinções teóricas, como língua x fala, forma x substância, noções de pertinência, de signo, significante e significado.

Saussure chegou à distinção entre língua e fala observando fatos quotidianos, entre eles o jogo.

Em Saussure, o jogo é evocado antes de mais nada para contrapor os inúmeros desenvolvimentos que se podem prever a partir da "regra do jogo" ao conjunto sempre limitado de jogadas que efetivamente se realizam quando o jogo acontece. A idéia de que no jogo de xadrez são possíveis certas jogadas, mas não outras (...) leva, em suma, a valorizar o que não se observa, ou seja, "a regra do jogo" encarada como possibilidade jogo, ou no caso da língua, como condição de comunicação. (Introdução a Linguística - P.57 - Grifos meus)

Por esse caminho, chega-se à mais fundamental das oposições saussurianas, a que se estabelece entre a língua e fala, ou seja, entre o sistema e os possíveis usos do sistema.
Para Saussure, o sistema era abstrato e se opunha aos episódios comunicativos historicamente realizados. Dessa forma, Saussure estabeleceu que o objeto específico da pesquisa linguística deveria ser a "regra do jogo", isto é, o sistema.

A oposição entre os atos linguísticos concretos e o sistema abstrato é conhecido como "oposição língua/fala" ou "oposição langue/parole".


Os indivíduos que utilizam a linguagem o fazem sempre por iniciativa pessoal, mas sua ação verbal só tem os efeitos que tem pela existência de um sistema que o usuário compartilha com outros membros da comunidade linguística de que faz parte. Por isso Saussure qualificou a língua como um fenômeno social e caracterizou a linguística como um ramo da psicologia social.

Seguindo Saussure, os estruturalistas não só entenderam que seria preciso tratar separadamente do comportamento linguístico das pessoas e das regras a que obedece esse comportamento, mas ainda entenderam que o uso individual da linguagem (a parole), não poderia ser objeto de um estudo científico.

Voltando à metáfora do jogo e ao conceito de valor, todo mundo sabe que é possivel substituir uma peça perdida por um objeto qualquer e jogar o jogo sem problemas, desde que convencionemos que a peça improvisada (um botão ou uma pedra) representará a que se extraviou. Isso significa que a descrição de um sistema linguístico não é a descrição física de seus elementos, e sim a descrição de sua funcionalidade e pertinência.

Certas diferenças acústicas ou articulatórias que parecem consideráveis quando são avaliadas em termos físicos podem ser desprezadas numa análise rigorosamente linguística, porque não são investidas de nenhuma função. (Um exemplo disso é a maneira como os paulistas falam porta com o R enrolado e os cariocas falam porta sem enrolar o R). Essas diferenças de pronúncia não interessam porque levam às mesmas unidades linguísticas - no caso, às mesmas palavras.

Pensemos, por exemplo, na maneira como pronunciamos a palavra ENFIAR. A escolha de uma pronúncia sonora ou surda para esse som não modifica o sentido da palavra. (Enfiar = introduzir num orifício) - Parem de pensar maldade. - q

Mas, se grafarmos a palavra com V, por exemplo, passaremos de ENFIAR a ENVIAR e aí sim haverá mudança de sentido (ENVIAR = mandar, remeter)

Diremos então que a propriedade física depende do contexto. A diferença de forma corresponde a diferença de função. Obviamente, uma diferença física pode ser portadora de uma distinção em uma língua e não ser em outra.

Explicitando a intuição Saussuriana, Hjelmslev chamou de forma, tudo aquilo que uma determinada língua institui como unidades através da oposição; à forma, ele opôs a substância, definida como o suporte físico da forma, que tem existência perceptiva mas não necessariamente linguistica.

Assim, nas palavras carro e caro é possível distinguir uma diferença que é ao mesmo tempo substância e forma. Mas nas diferenças entre as duas pronúncias possíveis para a palavra carro só há distinção de substância.

Há uma concepção de linguagem até hoje bastante difundida, segundo a qual as palavras nomeiam seres cuja existência precede a língua e cujas propriedades são determinadas independentemente dela (É a concepção que está no mito bíblico segundo o qual Adão teria dado nomes às coisas). Foi precisamente a essa concepção tradicional e ingênua que Saussure contrapôs a noção de signo linguístico, pois os dois componentes do signo não devem sua existência a nenhum fator externo à língua, mas tão somente ao fato de que estão em oposição a todos os demais significados e significantes previstos pela língua.

Falar em valor linguístico a propósito de Saussure é antes de mais nada, ressaltar a natureza opositiva do signo. O que fundamenta a especificidade de cada signo linguístico não é o fato de que ele se aplica a certos objetos do mundo, e não a outros; é a maneira como a língua coloca esse signo em contraste com os demais.

Teoria Saussuriana de valor: A relação entre significante e significado deve ser considerada à luz do sistema em que se insere, e não nas situações práticas em que a lingua intervém ou nas realidades extralinguísticas de que permite falar.

Obs.¹ Os signos linguísticos se relacionam no sistema da língua.
Obs.² O signo é arbitrário e de natureza opositiva.
Obs.³ O signo é linear.

Idéia radical de arbitrariedade: Uma vez estabelecido que toda língua relaciona sons e sentidos, articulando-os mediante uma forma, a forma adotada para realizar essa articulação varia de uma língua historicamente dada para outra.

A noção radical de arbitrariedade tem tudo a ver com valor linguístico porque cada língua organiza seus signos através de uma complexa rede de relações que não será encontrada em nenhuma outra lingua. (P.65)

O quadro das doutrinas saussurianas não seria completo se não mencionássemos uma última posição. Trata-se da oposição entre sincronia e diacronia.

A linguística diacrônica estudaria a língua e suas variações histórico-temporais e a linguística sincrônica estudaria a língua em um certo momento, sem importar sua evolução temporal.

As gerações posteriores a Saussure não só aceitaram o desafio de descrever as línguas estudadas mediante cortes sincrônicos, mas também começaram a interessar-se por línguas difíceis de abordar num certo momento histórico, como as línguas ágrafas ou as variantes não-padrão das línguas de cultura. Isso proporcionou um estudo livre da influência da tradição gramatical greco-latina e proporcionou uma visão da história como uma sucessão de sincronias, o que fez com que as linguísticas estruturais fossem tipicamente sincrônicas.

E quais são essas linguísticas estruturais?

Continua no próximo post! :*

História do Pensamento Linguístico

Que tal aprender algumas coisinhas legais acerca da linguagem?

Para começar, vamos definir cada termo do nosso objeto de estudo:

História – É uma narrativa contada em sequência temporal. Tem a ver com campos de conhecimento, com povos, com acontecimentos marcantes.

Pensamento – É uma Idéia, uma reflexão, uma consideração acerca de alguma coisa.

Como é que nós podemos traduzir o que estamos pensando? Nós podemos traduzir usando a Linguagem. Pode ser linguagem verbal, não verbal, expressão corporal, artes, etc.

Essa capacidade de simbolizar é inerente à condição humana e as práticas sociais estão ligadas à ela. Por quê? Porque as práticas sociais se organizam em sistemas de signos para transmitir a cultura. Vamos explorar melhor a afirmação?

O que é um signo?

Ferdinand de Saussure trouxe contribuições importantíssimas para a Linguística, como teorias acerca da língua e da fala (langue e parole). Para Saussure, a língua é uma coisa imposta ao indivíduo e a fala é um ato particular. Sendo assim,

Signo = Significante + Significado

Onde o significado é o valor, o sentido, o conteúdo semântico e o significante é a manifestação fônica do signo. Sendo assim, toda palavra que possui um sentido é considerada um signo lingüístico. Quer um exemplo?

Cadeira.

Percebemos que há a união de som, conceito e escrita, ou seja, significado e significante. Portanto, “cadeira” é um signo lingüístico.

Roland Barthes, assim como Ferdinand de Saussure, notou que o signo é composto de um significante e de um significado e acrescentou que

o plano dos significantes constitui o plano de expressão e o dos significados o plano de conteúdo. (BARTHES, 1991, p. 43).

O que é um sistema de signos?

Um sistema é constituído pela relação dos elementos de um conjunto. Então isso quer dizer que um sistema de signos é um conjunto de signos que se relacionam? Existe interação do significante e do significado? Veja:

Os termos implicados no signo lingüístico são ambos psíquicos e estão unidos, em nosso cérebro, por um vínculo de associação. (...) O signo lingüístico une não uma coisa e um palavra, mas um conceito e uma imagem acústica. (...) O signo lingüístico é, pois, uma entidade psíquica de duas faces (...) Esses dois elementos estão intimamente unidos e um reclama o outro. (Saussure, 1970:79-80 - Grifos meus).

Veja a imagem abaixo:

Como você sabe que o que está representado na imagem é uma cadeira? Porque há relação entre o significante (a expressão) e o significado (conteúdo).

Então... A linguagem é um sistema!

Sim, a linguagem é um sistema porque serve como meio de comunicação de idéias ou sentimentos através de signos sonoros, gráficos, gestuais etc. A natureza dos signos caracteriza o tipo de linguagem (visual, corporal, gestual...).

Mas não confunda língua e linguagem!

Linguagem é qualquer forma de se comunicar através de signos visuais, auditivos, corporais e principalmente signos verbais.

A Língua é um conjunto de palavras e expressões usadas por um povo, por uma nação, é um sistema com regras próprias.

Voltando a nossa afirmação, “As práticas sociais se organizam em sistemas de signos para transmitir a cultura.”, podemos concluir que a relação entre os homens dentro de uma sociedade é mediatizada pelos signos. Os signos são convenções sociais. Afinal, todos do nosso grupo social sabem que uma cadeira se chama cadeira, né? ;)

Prosseguindo...

A Lingüística é a ciência que estuda os signos Lingüísticos. A Lingüística faz parte da Semiótica, que também estuda signos. Mas qual é a diferença entre as duas?

Simples demais! A Lingüística se restringe ao estudo dos signos da linguagem verbal e a Semiótica é o estudo mais amplo dos signos, envolvendo Artes visuais, Fotografia, Vestuário, Gestos, etc.

A língua natural (materna) é o primeiro mecanismo de socialização do individuo. Ao mesmo tempo em que uma pessoa aprende sua língua, ela aprende também os valores, o comportamento, a ideologia do seu grupo social. – Isso explica porque minha prima de 6 anos já fala coisas do tipo “caraca, maluco!” e “E o Kiko? Casou com a Kika, teve 3 kikinhos e saiu kikando para a kikolândia” (?) – Também explica porque o meu cunhado vive dizendo coisas do tipo “Viva o Linux!”; É isso que dá viver num ambiente de nerds adeptos do Software Livre rs.

Apesar de representar os valores, o comportamento, as gírias, a ideologia de um grupo social, as línguas naturais não representam diretamente a realidade. Elas representam apenas aspectos das experiências vividas por cada povo, e essas experiências não são as mesmas de uma região para outra. Vamos entender isso melhor: Pense nas gírias, que também fazem parte da identidade cultural de um povo. No Rio Grande do Norte, por exemplo, é comum os homens utilizarem expressões do tipo “Nossa, que bicha boa!”, enquanto aqui no Rio de Janeiro, na hora da “azaração” os homens dizem: “Que mina gostosa,meu!”.

Outro exemplo que eu posso citar para convencê-los de que as línguas naturais são aspectos isoladas de cada povo é o fato de “não existir” a palavra SAUDADE em Inglês. Em Inglês, utiliza-se MISS, por exemplo: “I miss you”. Miss, na verdade significa: “perder" ou "sentir falta”, o que não é tão bonito quanto saudade: “Recordação nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes, ou de coisas passadas que se deseja voltar a ver ou possuir.” Explicação para isso? As línguas repartem, de maneiras diferentes, os mesmos domínios práticos e conceituais. Parabéns! Você acabou de conhecer a Teoria de valor, de Saussure! :)

Para Saussure, a relação entre significante e significado deve ser considerada à luz do sistema lingüístico em que o signo se insere, e não nas situações práticas em que a língua intervém ou das realidades extralingüísticas de que permite falar. Essa recomendação vai no sentido de uma lingüística imanentista, ou seja, uma lingüística que procura minimizar as relações que a língua mantém com o mundo. Vai também no sentido de dar prioridade lógica às relações que se estabelecem no interior do sistema, e não às unidades entre as quais essas relações se estabelecem. (O estruturalismo Linguístico, Rodolfo Ilari, P.64)

Daí passa-se a outro princípio saussureano, o da arbitrariedade das línguas, que pode ter dois sentidos diferentes:

O primeiro é aquele que as pessoas usam quando especulam sobre a forma e a história de certas palavras, perguntando se entre os sons e os objetos significados há algum tipo de semelhança (O estruturalismo Linguístico, Rodolfo Ilari, P.64)

Saussure desenvolveu também um segundo conceito de arbitrariedade, bem mais radical, que resulta diretamente da concepção de signo lingüístico como unidade de natureza opositiva. (...) Uma vez estabelecido que toda língua relaciona sons e sentidos articulando-os mediante uma forma, a forma adotada para realizar essa articulação varia de uma língua historicamente dada, para outra.(O estruturalismo Linguístico, Rodolfo Ilari, P.64 – Grifos meus)

Anoção radical de arbitrariedade tem tudo a ver com a noção de valor lingüístico (...) Cada língua organiza seus signos através de uma complexa rede de relações que não será reencontrada em nenhuma outra língua. (...) Para quem quiser um exemplo mais ilustre, (...) vale a distinção entre as palavras latinas Níger e ater; ambas significavam “preto” (ou “negro”), mas havia entre elas uma diferença relacionada a brilho. (Níger significava o negro “brilhante”, ao passo que ater significava o negro “opaco” (O estruturalismo Linguístico, Rodolfo Ilari, P.64 – Grifos meus)

“Dizer que as línguas historicamente dads são arbitrarias significa, no casão, que não há nada que impeça duas línguas – mesmo duas línguas da mesma família, como o português e o latim – de segmentar a realidade de modos diferentes, aplicando conjuntos diferentes de signos a uma mesma realidade objetiva”.

Por isso que a Lingüística é uma ciência interdisciplinar, envolvida com a antropologia, a sociologia, a teoria literária, a psicanálise, etc.

Ainda há quem faça confusão entre lingüística, filologia e gramática. Mas não os leitores do meu blog, por favor!!! :P

Filólogo é quem estuda textos antigos.

Lingüista é quem estuda a modalidade escrita e oral e as variações lingüísticas.

Gramático é quem estuda a norma culta da língua. (Seu estado canônico)

No próximo Post vamos estudar um pouquinho sobre como foi o estudo da lingüística em diferentes períodos da história, como o período Medieval, o período Alexandrino, a Renascença e os séculos posteriores.

sábado, 30 de abril de 2011

Le plaisir du texte.



Vou fazer um seminário sobre "O prazer do texto" de Roland Barthes na faculdade e estou fazendo estudos e análises também do livro "Roland Barthes por Roland Barthes" Comprei ontem um exemplar de "O prazer do texto" que me custou apenas R$10,00 na livraria Saraiva e o outro me custou R$40.00 com frete na Saraiva Online. Foi um ótimo investimento! O livro "O prazer do texto" apresenta a teoria de Roland Barthes acerca da escrita de um texto até o momento em que seu leitor o devora. Prazer e Fruição são duas noções que passam por todo o livro, quando o autor apresenta um texto de prazer como algo proveniente da cultura e da prática confortável de leitura e a fruição de um texto ligada a uma ruptura, um afastamento da cultura e da ideologia, onde o leitor percebe um conflito entre suas crenças. Então, o prazer do texto, ao que me parece, deve estar entre as transgressões sutis e as oscilações que há entre o prazer e o gozo.
"O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias idéias - pois meu corpo não tem as mesmas idéias que eu."
"O texto que o senhor escreve tem de me dar prova que ele me deseja. Essa prova existe: é a escritura. A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem, seu kama-sutra..."
"O que é a significância? É o sentido na medida em que é produzido sensualmente"
Um questionamento muito interessante proposto por Barthes nesse livro é "Como sentir prazer em um prazer relatado?"
Leia o livro para descobrir! :-)

Garota que Lê
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